Invisíveis

O sábio Rubem Braga, certo dia observou em O padeiro, que o referido ao oferecer seu produto ao chegar próximo a janela de um cliente costumava disparar que “Não era ninguém não. Era só padeiro”. Encafifado, Braga questionou ao homem por que ele apagava sua identidade ao tentar vender seus produtos. De pronto a seguinte resposta:

“Se eu grito que é o padeiro, as donas das casas não me atendem. Se eu falo que não é ninguém não, elas sentem-se menos incomodadas e as chances de vendas aumentam. Sabedoria popular”.
Domingo de tarde, deitado na rede, descansando do almoço e lendo material para meus estudos sobre espaço escolar e discursos de ódios, enquanto luto contra o sono e assim, evitar que o livro não caíra em minha cara, alguém ousou bater no portão. Eram 14h39. Insistiram. As cachorras alvoroçaram-se. O silencio fora quebrado. Já não tinha mais clima para leitura. E o sono desapareceu sorrateiramente.
Não bastasse a insistência ao gritar, também esmurrava o portão. Pensei que era um exercito. Não satisfeito com a barulhada que incomodava agora não apenas a minha casa como também a dos vizinhos, o sujeito teve o desplante de colocar a cabeça para dentro do portão e, deparou-se com minha figura esparramada na rede, pernas para o alto. Ele “esquece” o cumprimento de boa tarde e vai direto perguntando pelo dono da casa.
Sou obrigado a sair da minha paz e ver o que aquela alma insistentemente mal educada demandava em pleno domingo de sol e mormaço cuja ausência de vento, era sentida por todos os seres vivos por estas bandas.
– Olá. Sou fulano. Quero falar com o dono da casa.
Notei a bíblia debaixo das axilas. Páginas e camisa igualmente molhadas.
– Quero trazer a boa nova.
Imediatamente lembrei-me do conto de Rubem Braga.
– Desculpas. Infelizmente o dono da casa está viajando.
– E você deitado na rede?
– Sim sou o caseiro que cuida das ‘cachorrinha’ da casa.
– Ah tá. Tudo bem. Deixa pra lá então. Tenha um bom domingo de trabalho.
– Vá com deus varão. Despedi-me com sorrisos nos lábios. Valeu Rubem Braga.

Ao retornar para minha rede não pude deixar de pensar: que deus é este que faz diferenciação por profissões; assepsias por classe social? Imagino que Ele olhou para esse varão com vergonha. Mas de certo Rubem Braga fiou orgulhoso de mim. E que barulho foi aquele?

Quando finalmente consigo ouvir os pássaros cantando no fio de alta tensão também ouço que alguém estaria distribuindo 50reais e estava com vontade de dar na cara de outro alguém. Eu só aceitaria os 50reais por conta da crise financeira e deixaria eles resolverem esse imbróglio, mas ai lembrei: era uma daquelas músicas que gritava no rádio do vizinho, do outro lado da rua a sofrencia que toma conta das relações humanas em uma terra chamada brasilis.

Domingão no subúrbio é assim. E nem vale reclamar do barulho que rola lá fora. Todos que ainda possuem empregos trabalham demais para sobreviverem, então, no domingo, nada mais justo que incomodar o vizinho que nunca é visto ao longo da semana.

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